Estudos de Caso sobre Startups (#1) – Theranos

Por Arthur Andrade

Essa empresa que começou como uma startup foi fundada em 2003 nos Estados Unidos por Elizabeth Holmes, que estudava engenharia química em Stanford, até que decidiu sair da universidade para empreender na área de saúde.

A ideia dela, que tinha medo de agulhas, seria criar testes de sangue indolores e mais acessíveis, onde uma gota de sangue de um simples furo no dedo pudesse substituir os métodos tradicionais de extração desse fluido e o batizou de ‘Edison’ – uma homenagem a Thomas Edison, grande inventor americano.

Inicialmente, até o final de 2004, ela já havia criado a marca “Theranos” (junção dos nomes ‘therapy’ ou ‘terapia’ em inglês + ‘diagnose’), alugado um espaço para o empreendimento e arrecadado 6 (seis) milhões de dólares de investimento-anjo[1]. Desse período até 2010, a empresa tinha firmado contratos com companhias farmacêuticas para realizar testes clínicos e adquirido 92 milhões de dólares de investimento.

Até 2013, ela já tinha um excelente quadro de diretores, que incluía George Shultz, ex-Secretário de Estado do governo americano e não havia sequer publicidade da empresa para o público, nem sítio eletrônico, até a parceria nesse mesmo ano com a Walgreens para ter centro de coleta de amostras de sangue nas lojas dela.

Assim, em 2015, a fundadora tinha 4,5 bilhões de dólares em capital, correspondente ao seu montante de ações na empresa (50%), o que a fez entrar no rol de bilionários jovens e a ganhar atenção e reconhecimento da mídia mundial sobre o seu empreendimento. A companhia chegou a valer R$ 9 (nove) bilhões de dólares[2]. Tudo parecia ir muito bem com a Theranos.

Contudo, em 2016, após aferições calculadas por diversos analistas de mercado, a Theranos passou a ter um valor de mercado aproximado de 700 milhões de dólares, um valor 80% menor que o anterior, só que essa medição se baseou em outros critérios sobre a Theranos.

Primeiramente, ao que parece, segundo divulgação na imprensa[3], a empresa não conseguiu realizar testes de sangue comprovadamente seguros, pois seus resultados destoavam dos testes tradicionais e estava investindo em um substituto, um aparelho de detecção de vírus que também falhou.

Ela não entregava bons resultados dos testes de sangue à ‘Food and Drug Administration’ (FDA) (correspondente à brasileira ANVISA) houve restrições realizadas por esse órgão aos exames desse tipo da empresa. Fábricas foram fechadas.

A Theranos fazia outras detecções, como com o vírus Herpes, mas foi divulgado somente um envio de teste bem-realizado à FDA. Funcionários delataram a empresa sobre seus testes imprecisos[4] e esse órgão e departamentos estaduais de saúde passaram a investigar a empresa com a possibilidade de aplicar-lhe sanções.

O resultado, depois dessa confusão toda, é que a fortuna bilionária da fundadora foi estimada em zero, pois como suas ações não são preferenciais em caso de falência da empresa, os acionistas e os investidores receberiam as indenizações devidas antes dela, o que prejudicaria seu patrimônio.

Já em 2017, sob riscos de processos de investidores, tentativas de dar a volta por cima dessa situação e voltar a crescer junto a órgãos do governo, investidores e público, a fundadora disse que irá pagar com suas ações aos acionistas que prometerem não processar a companhia[5] e só haveria 150 milhões de dólares em caixa – excluindo os débitos.

O futuro da Theranos é incerto – não se compara mais ao brilhantismo de antes, que pode ter sido inflado pela mídia e divulgado como um empreendimento de sucesso mesmo antes de ter chegado nesse nível.

O que se pode apreender e aprender com essa história é uma lição simples que pode ser aplicada às startups: Não se deve acreditar que algum projeto é um sucesso antes de verificar se ele tem condições, de fato, de sustentar todas as suas boas previsões. Como o valor de mercado de empresas de tecnologia é uma estimativa, mas nem sempre condiz com a realidade, pequenas empresas podem chegar a receber aportes muito altos de investidores e não passarem a gerar o lucro esperado – há que se ter precaução antes de aplicar o próprio capital em projetos como a referida Theranos.

[1] Disponível em: < http://www.newyorker.com/magazine/2014/12/15/blood-simpler >

[2] Disponível em: < https://www.forbes.com/sites/matthewherper/2016/06/01/from-4-5-billion-to-nothing-forbes-revises-estimated-net-worth-of-theranos-founder-elizabeth-holmes/#e3073cb36331 >

[3] Disponível em: < https://techcrunch.com/2017/01/17/theranos-last-lab-inspection-test-fail/ >

[4] Disponível em: < http://exame.abril.com.br/negocios/theranos-maior-promessa-da-saude-nao-entrega-o-que-promete/ >

[5] Disponível em: < http://www.cnbc.com/2017/03/23/theranos-sell-shares-to-investors-promise-not-to-sue.html >

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